LaTrama

“LaTrama” é como chamamos o processo de pesquisa base das nossas coleções. Nossas coleções são inspiradas em um processo de pesquisa prévio, profundo e profissionalmente orientado. Dessa forma, estimulamos o pensamento crítico e o acesso ao conhecimento em uma dinâmica de aprendizado de via dupla: quem produz aprende tanto quanto quem consome. Portanto, esteja sempre atento às “Tramas” de cada coleção para compreender qual a inspiração das estampas. E por isso, sempre reafirmamos, cada peça é única e vai além dela mesma.

Por Trás dos Panos
Preview

É indiscutível a importância que a moda possui em nossas vidas cotidianas. Seja ao sair para trabalhar, eventos sociais ou mesmo em atividades corriqueiras nos preocupamos em usar roupas adequadas ao estilo que gostamos ou a aquele que acreditamos ser somente nosso. A verdade é que, apesar de se manifestar despida de disfarces no mundo do vestuário, a moda afeta diversas outras áreas de nossa existência. Além disso, a moda não é algo que “sempre existiu” ou que “sempre foi acessível”, sendo na verdade bem recente o que podemos chamar de “democratização” do universo da moda.

“LaTrama” a seguir é fruto de muita pesquisa desenvolvida ao longo de meses pela equipe Ducore. Acreditamos ser necessário mais do que nunca assumirmos uma postura ativa perante o que consumimos, conhecendo, refletindo sobre e desenvolvendo um pensamento crítico. Afinal:

“Mesmo para se quebrar regras, é preciso antes conhece-las”

JavDolla.

Na sequência trataremos da história da moda, seus usos ao longo do tempo e aprendizados para nossos dias. Para além do tecido, da costura e tinta, olharemos para a história, a vivida, a contada: olharemos “Por Trás dos Panos”.

Por Trás dos Panos
Chapter

Esse texto será simples, de linguagem simples, vocabulário simples e não poderia ser diferente pois foi escrito por alguém simples, mas ainda assim, encorajamos todos a lerem. Nos acompanhe nessa trama.

“A moda te torna famoso, tua escrita te torna eterno”.

Palavras de um poeta urbano de talento imensurável, artisticamente conhecido por Nocivo Shomon. Por mais que não saibamos se a fama e eternidade nos encontrarão, nas próximas linhas associaremos a escrita à moda com o objetivo de alcançarmos aquilo que temos como missão: refletir sobre o mundo e desenvolver um pensamento crítico, usando a moda como instrumento. Eventualmente trataremos de outros assuntos, mas nada mais coerente do que nossa primeira coleção tratar sobre a própria moda.

A moda não se restringe ao vestuário pois é um fenômeno social, uma lógica de pensamento mais abrangente podendo ser aplicada ao universo das roupas, assim como o da música e outros. Aqui focaremos na moda de vestuário e como o próprio tema desta coleção sugere, olharemos por “Por trás dos Panos”. Para além do tecido, da costura e tinta, olharemos para história, a vivida, a contada.

A moda é geralmente definida como a busca por aquilo que é novo, mas não se trata de inovar para alcançar um outro objetivo, como por exemplo inovar o corte de determinada roupa para facilitar a locomoção. A busca pelo novo é vista como um fim em si mesmo, ou seja, “queremos o novo simplesmente por gostarmos e venerarmos aquilo que é inovador e isso é o bastante para renovarmos nosso guarda-roupa mesmo com peças essencialmente parecidas: a moda é o reino da novidade! Tal “comportamento” começou na Europa em meados do século quinze, lá pelo fim da idade média. Antes disso o vestuário europeu tinha mudado pouco desde o período romano e, apesar de sua estrutura básica se manter, passa a ser cada vez mais frequente as alterações e inovações nos detalhes, ornamentos e acessórios. Esse processo começou basicamente por dois motivos:

  • Estavam rolando mudanças importantes na sociedade europeia. Com o Renascimento, a individualidade passa a ter cada vez mais importância e assim a forma de se vestir deixa de ser refém da tradição e do estilo de roupas dos antepassados.
  • Essa época também é marcada pelo desenvolvimento inicial do capitalismo mercantil (aquele das grandes expedições, europeu explorando e saqueando o mundo…). Até então os ricos eram as pessoas de sangue real ou ligadas a realeza, mas com esse novo momento do capitalismo uma galera começou a enriquecer e rivalizar com esses nobres.

Para se ter ideia, nesse período eram baixadas leis que proibiam o uso de determinadas roupas caso a pessoa não fosse membra da corte. Óbvio que essa rapaziada infringia a lei e usava mesmo. A nobreza então criava novas distinções, ornamentos e detalhes nas roupas para novamente se destacarem, ou seja, se o poder econômico deixou de servir como métrica de separação, o vestuário ganha importância como instrumento de diferenciação. Obviamente pobres estavam excluídos desse tipo de dinâmica. A competição acontecia entre uma realeza enriquecida, mas decadente e uma classe de burgueses sem sangue real. Pobres e camponeses sempre estiveram fora do espetáculo da moda. Essa moda que surgiu no fim da idade média permaneceu relativamente estável até metade do século dezenove. A partir de então inaugura-se o momento moderno, que perdura até 1960.

A moda moderna se estabelece com o surgimento da Alta Costura, caracterizada pelas peças de luxo. A alta Costura é quem lança a tendência do ano, enquanto as demais confecções copiam ou inspiram-se nela com preços bem mais baratos. É com seu aparecimento que a moda se torna uma burocrática empresa de criação e um espetáculo publicitário. Ela domina e disciplina o processo criativo, organizando a moda por coleções sazonais, utilizando modelos ao invés de cabides e elevando o costureiro à posição de protagonista, sendo este o responsável pela criação enquanto anteriormente o vestuário era feito ao gosto do cliente. É só a partir desse momento que o costureiro/estilista ganha autonomia e passa a ser considerado (ou a considerar-se) um artista e não apenas um peão sobre um tabuleiro do qual não tem controle.

Até aqui você deve ter percebido que falamos do mundo da moda como se fosse exclusivo para quem tem poder aquisitivo, certo? De fato, a moda descrita até aqui sempre foi instrumento de segregação, usada para separação entre classes sociais. Mas essa lógica foi abalada por movimentos sociais e desenvolvimentos tecnológicos ocorridos por volta de 1950.

A partir dos anos 50 é possível identificar um novo momento da moda: surge o “pret-a-porter” ou “pronto para vestir” que diferente da lógica até então vigente, visava a produção em escada industrial e permitiu de forma crescente o acesso das classes antes excluídas. Nos anos 60 explode a cultura juvenil, valorizando ardentemente a criatividade, originalidade e o enfrentamento do sistema de valores, tanto no campo político, quanto no estético. Agora temos que nos referir “as modas”, pois aquela que estava estruturada em torno da Alta Costura se pulveriza e se manifesta em diversos grupos diferentes que reivindicam um estilo próprio como o punk, hippie, urbano, skatistas e etc. Se antes a moda servia como marcador da diferença entre classes, passamos a ter grupos que criam seu próprio estilo e seus membros são os mais diversos possíveis. Por um lado, a difusão de estilos e o desenvolvimento tecnológico industrial permitiu um acesso mais amplo a imitações dos itens de grife, garantiram também que a própria criação fosse pulverizada, permitindo que novos artistas, grupos e clãs criassem seus próprios itens e se lançassem a disputa pela atenção. Essas mudanças são importantes pois se nos recordarmos bem de toda história narrada até o momento, a moda sempre foi privilégio de poucos.

Certo chegamos no ponto alto da dessa Trama. Você já se perguntou o que é o “Estilo Streetwear”? O streetwear foi criado bem antes dessa palavra ser usada e responder essa pergunta é o mesmo que se perguntar quando e onde se começou a falar determinada gíria (“gíria não, dialeto”). É incerto definir no tempo e espaço quando estilos marginais e periféricos se organizaram e fizeram barulho. Streetwear não é um estilo especifico e sim uma ideia, um objetivo e para alguns uma causa pela qual se lutar. Como bem descreve Bobby Hundreds (Sim, da The Hundreds) em seu livro “ThisIsNot a T-Shirt: A Brand, a Culture, a Community:

“Streetwear, however, is simply the merchandise associated with an atitude”.
“Streetwear, contudo, é simplesmente um produto associado a uma atitude”.

Pode se dizer que é neste momento, nas décadas de 50 e 60 que nasce o Streetwear. Trata-se, portanto, de uma mistura de tendências e estilos, criados e utilizados como arma de ruptura com o normal e enfrentamento do sistema. Hoje pode ser corriqueiro e normal calças rasgadas, camisetas largas ou até mesmo o uso de jeans. Mas naquele momento foi uma grande ruptura, uma maneira de expressar inconformismo com a política e estilo de vida das gerações mais velhas. E não parou por aí. Lembra da alta costura, aquela extremamente elitista e direcionada para um “público refinado”? A partir, principalmente dos anos 2000, passa a se inspirar (e não é pouco) nas modas “marginais”, criadas nos subúrbios e favelas, modas criadas exatamente para confronta-la. A título de exemplo, dê uma olhada na “Men’sFall-Winter 2021 Fashion Show” a coleção de Inverno-2021 da Louis Vuitton: a 50 ou 60 anos atrás seria impensável uma coleção da Louis Vuitton com tantos elementos obviamente inspirados no hip-hop e skatewear. Seria impensável VirgilAbloh como diretor, impensável a utilização majoritária de modelos negros. A “alta moda” é um hospedeiro de grife das culturas periféricas, fazendo aquilo que o mundo ocidental sempre fez. Colonizando, copiando e lucrando. A moda é um jogo de ironia, diferencia hoje para incorporar amanhã e a alta costura a que representava a diferenciação de classe e esnobava estilos disruptivos hoje bebe da fonte divina da cultura urbana periférica. Bem diz o atemporal som do Racionais Mc’s, Negro Drama:

“Esse não é mais seu, oh, subiu
Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu
Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia?
Seu filho quer ser preto, ah, que ironia”

Vale dizer que o inverso também ocorre, a ressignificação de elementos historicamente exclusivos e de luxo passando a servir como referência e fazer parte de uma “cultura marginal” por seu uso contínuo. Exemplo disso é o uso difundido nas periferias de São Paulo e do Rio da grife Lacoste, inclusive bastante associadas nesses espaços ao Funk. É quase como se a marca tivesse surgido na perifa, tamanho o fascínio e ressignificação que sofreu.

Por fim, mas não menos importante, vale um retorno ao ponto de onde começamos. Toda história da moda anterior a metade do século dezenove é essencialmente uma história da moda contada por europeus e em outras palavras, essa história também é fruto da luta por poder e imposição, sendo afirmado inclusive, que a moda é um fenômeno original e exclusivo do “mundo ocidental”. E como é bem conhecido, quem controla a história controla mente e corações. É necessário termos em mente que a própria história que aqui foi contada hoje passa por ajuste de foco trazendo a cena vozes que foram silenciadas. Moda não é necessariamente apenas “a busca do novo em si mesmo”. Se ela se desenvolveu assim nos países do ocidente não significa que outros povos e culturas possuam essa mesma relação com o vestuário.

A imagem a seguir, nossa estampa principal, traz consigo a história que tramamos e relatamos. Mais à direita, temos a Alta Costura representada por uma passarela da Semana de Moda de Paris; à esquerda, uma representação do Streetwear no grafite realizado em uma favela, significando marginalidade e originalidade; ao centro vemos o Museu Victoria and Albert (importante museu de arte e moda) representando a história que conecta os dois momentos da moda em seus extremos. A composição é completa e ganha seu significado final quando nosso personagem sobreposto as demais imagens entra em cena: representa, segurando um livro em sua mão esquerda, o acesso ao conhecimento e uma avaliação crítica da história que lhe foi contada.

Tratamos de diversas questões nessa Trama mas não temos tempo e espaço para tratar de todas. Nosso objetivo é criar pontes entre a moda e um pensamento mais crítico a respeito do nosso mundo e sociedade. Encerramos com uma paráfrase do poeta Rodrigo Campos: “a beleza da escrita é sugerir alguns alicerces para que depois cada um faça a sua própria construção”. A moda tem história e ao vestir-se faz-se história, que possamos dar passos diários em direção a uma consciência mais crítica, capaz de utilizar o conhecimento para questionar e encantar.

Fontes:

Racionais Mc’s. Negro Drama. Nada Como um Dia Após o Outro Dia. 2002. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=u4lcUooNNLY

Kyan. Nós é Ruim e o Cabelo Ajuda. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9IVs6NhWMyw

Hundreds, Bobby. ThisIsNot a T-Shirt: A Brand, a Culture, a Community – A Life in Streetwear. 2019

Lipovetsky, Gilles. Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução por Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Svendsen, Lars. Moda: Uma Filosofia. 2004

Santos, Heloisa Helena. Uma análise teórico-política decolonial sobre o conceito de moda e seus usos. Variata, v. 13 n. 28, 2020.

Massaroto, Ludimila Prado. Moda e Identidade: o consumo simbólico do vestuário.

Souza, Gilda de Mello e. O Espírito das Roupas: A Moda no Século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Morgado Pereira, Carolina (2015). O Vestuário e a Moda: e suas principais correntes teóricas. ModaPalavra e-periódico,202-221, 2015.

Bordieu, Pierre. Alta Costura e Alta Cultura, 1974.

Almeida, A. J. de. Indumentária e moda: seleção bibliográfica em português. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 3(1), 251-296, 1995.

Cunha, Maria Amália de Almeida. O conceito “capital cultural” em Pierre Bourdieu e a herança etnográfica. Perspectiva (Florianópolis), v. 25, p. 503-524, 2007.

“LaTrama” é como chamamos o processo de pesquisa base das nossas coleções. Nossas coleções são inspiradas em um processo de pesquisa prévio, profundo e profissionalmente orientado. Dessa forma, estimulamos o pensamento crítico e o acesso ao conhecimento em uma dinâmica de aprendizado de via dupla: quem produz aprende tanto quanto quem consome. Portanto, esteja sempre atento às “Tramas” de cada coleção para compreender qual a inspiração das estampas. E por isso, sempre reafirmamos, cada peça é única e vai além dela mesma.

Por Trás dos Panos
Preview

É indiscutível a importância que a moda possui em nossas vidas cotidianas. Seja ao sair para trabalhar, eventos sociais ou mesmo em atividades corriqueiras nos preocupamos em usar roupas adequadas ao estilo que gostamos ou a aquele que acreditamos ser somente nosso. A verdade é que, apesar de se manifestar despida de disfarces no mundo do vestuário, a moda afeta diversas outras áreas de nossa existência. Além disso, a moda não é algo que “sempre existiu” ou que “sempre foi acessível”, sendo na verdade bem recente o que podemos chamar de “democratização” do universo da moda.

“LaTrama” a seguir é fruto de muita pesquisa desenvolvida ao longo de meses pela equipe Ducore. Acreditamos ser necessário mais do que nunca assumirmos uma postura ativa perante o que consumimos, conhecendo, refletindo sobre e desenvolvendo um pensamento crítico. Afinal:

“Mesmo para se quebrar regras, é preciso antes conhece-las”

JavDolla.

Na sequência trataremos da história da moda, seus usos ao longo do tempo e aprendizados para nossos dias. Para além do tecido, da costura e tinta, olharemos para a história, a vivida, a contada: olharemos “Por Trás dos Panos”.

Por Trás dos Panos
Chapter

Esse texto será simples, de linguagem simples, vocabulário simples e não poderia ser diferente pois foi escrito por alguém simples, mas ainda assim, encorajamos todos a lerem. Nos acompanhe nessa trama.

“A moda te torna famoso, tua escrita te torna eterno”.

Palavras de um poeta urbano de talento imensurável, artisticamente conhecido por Nocivo Shomon. Por mais que não saibamos se a fama e eternidade nos encontrarão, nas próximas linhas associaremos a escrita à moda com o objetivo de alcançarmos aquilo que temos como missão: refletir sobre o mundo e desenvolver um pensamento crítico, usando a moda como instrumento. Eventualmente trataremos de outros assuntos, mas nada mais coerente do que nossa primeira coleção tratar sobre a própria moda.

A moda não se restringe ao vestuário pois é um fenômeno social, uma lógica de pensamento mais abrangente podendo ser aplicada ao universo das roupas, assim como o da música e outros. Aqui focaremos na moda de vestuário e como o próprio tema desta coleção sugere, olharemos por “Por trás dos Panos”. Para além do tecido, da costura e tinta, olharemos para história, a vivida, a contada.

A moda é geralmente definida como a busca por aquilo que é novo, mas não se trata de inovar para alcançar um outro objetivo, como por exemplo inovar o corte de determinada roupa para facilitar a locomoção. A busca pelo novo é vista como um fim em si mesmo, ou seja, “queremos o novo simplesmente por gostarmos e venerarmos aquilo que é inovador e isso é o bastante para renovarmos nosso guarda-roupa mesmo com peças essencialmente parecidas: a moda é o reino da novidade! Tal “comportamento” começou na Europa em meados do século quinze, lá pelo fim da idade média. Antes disso o vestuário europeu tinha mudado pouco desde o período romano e, apesar de sua estrutura básica se manter, passa a ser cada vez mais frequente as alterações e inovações nos detalhes, ornamentos e acessórios. Esse processo começou basicamente por dois motivos:

  • Estavam rolando mudanças importantes na sociedade europeia. Com o Renascimento, a individualidade passa a ter cada vez mais importância e assim a forma de se vestir deixa de ser refém da tradição e do estilo de roupas dos antepassados.
  • Essa época também é marcada pelo desenvolvimento inicial do capitalismo mercantil (aquele das grandes expedições, europeu explorando e saqueando o mundo…). Até então os ricos eram as pessoas de sangue real ou ligadas a realeza, mas com esse novo momento do capitalismo uma galera começou a enriquecer e rivalizar com esses nobres.

Para se ter ideia, nesse período eram baixadas leis que proibiam o uso de determinadas roupas caso a pessoa não fosse membra da corte. Óbvio que essa rapaziada infringia a lei e usava mesmo. A nobreza então criava novas distinções, ornamentos e detalhes nas roupas para novamente se destacarem, ou seja, se o poder econômico deixou de servir como métrica de separação, o vestuário ganha importância como instrumento de diferenciação. Obviamente pobres estavam excluídos desse tipo de dinâmica. A competição acontecia entre uma realeza enriquecida, mas decadente e uma classe de burgueses sem sangue real. Pobres e camponeses sempre estiveram fora do espetáculo da moda. Essa moda que surgiu no fim da idade média permaneceu relativamente estável até metade do século dezenove. A partir de então inaugura-se o momento moderno, que perdura até 1960.

A moda moderna se estabelece com o surgimento da Alta Costura, caracterizada pelas peças de luxo. A alta Costura é quem lança a tendência do ano, enquanto as demais confecções copiam ou inspiram-se nela com preços bem mais baratos. É com seu aparecimento que a moda se torna uma burocrática empresa de criação e um espetáculo publicitário. Ela domina e disciplina o processo criativo, organizando a moda por coleções sazonais, utilizando modelos ao invés de cabides e elevando o costureiro à posição de protagonista, sendo este o responsável pela criação enquanto anteriormente o vestuário era feito ao gosto do cliente. É só a partir desse momento que o costureiro/estilista ganha autonomia e passa a ser considerado (ou a considerar-se) um artista e não apenas um peão sobre um tabuleiro do qual não tem controle.

Até aqui você deve ter percebido que falamos do mundo da moda como se fosse exclusivo para quem tem poder aquisitivo, certo? De fato, a moda descrita até aqui sempre foi instrumento de segregação, usada para separação entre classes sociais. Mas essa lógica foi abalada por movimentos sociais e desenvolvimentos tecnológicos ocorridos por volta de 1950.

A partir dos anos 50 é possível identificar um novo momento da moda: surge o “pret-a-porter” ou “pronto para vestir” que diferente da lógica até então vigente, visava a produção em escada industrial e permitiu de forma crescente o acesso das classes antes excluídas. Nos anos 60 explode a cultura juvenil, valorizando ardentemente a criatividade, originalidade e o enfrentamento do sistema de valores, tanto no campo político, quanto no estético. Agora temos que nos referir “as modas”, pois aquela que estava estruturada em torno da Alta Costura se pulveriza e se manifesta em diversos grupos diferentes que reivindicam um estilo próprio como o punk, hippie, urbano, skatistas e etc. Se antes a moda servia como marcador da diferença entre classes, passamos a ter grupos que criam seu próprio estilo e seus membros são os mais diversos possíveis. Por um lado, a difusão de estilos e o desenvolvimento tecnológico industrial permitiu um acesso mais amplo a imitações dos itens de grife, garantiram também que a própria criação fosse pulverizada, permitindo que novos artistas, grupos e clãs criassem seus próprios itens e se lançassem a disputa pela atenção. Essas mudanças são importantes pois se nos recordarmos bem de toda história narrada até o momento, a moda sempre foi privilégio de poucos.

Certo chegamos no ponto alto da dessa Trama. Você já se perguntou o que é o “Estilo Streetwear”? O streetwear foi criado bem antes dessa palavra ser usada e responder essa pergunta é o mesmo que se perguntar quando e onde se começou a falar determinada gíria (“gíria não, dialeto”). É incerto definir no tempo e espaço quando estilos marginais e periféricos se organizaram e fizeram barulho. Streetwear não é um estilo especifico e sim uma ideia, um objetivo e para alguns uma causa pela qual se lutar. Como bem descreve Bobby Hundreds (Sim, da The Hundreds) em seu livro “ThisIsNot a T-Shirt: A Brand, a Culture, a Community:

“Streetwear, however, is simply the merchandise associated with an atitude”.
“Streetwear, contudo, é simplesmente um produto associado a uma atitude”.

Pode se dizer que é neste momento, nas décadas de 50 e 60 que nasce o Streetwear. Trata-se, portanto, de uma mistura de tendências e estilos, criados e utilizados como arma de ruptura com o normal e enfrentamento do sistema. Hoje pode ser corriqueiro e normal calças rasgadas, camisetas largas ou até mesmo o uso de jeans. Mas naquele momento foi uma grande ruptura, uma maneira de expressar inconformismo com a política e estilo de vida das gerações mais velhas. E não parou por aí. Lembra da alta costura, aquela extremamente elitista e direcionada para um “público refinado”? A partir, principalmente dos anos 2000, passa a se inspirar (e não é pouco) nas modas “marginais”, criadas nos subúrbios e favelas, modas criadas exatamente para confronta-la. A título de exemplo, dê uma olhada na “Men’sFall-Winter 2021 Fashion Show” a coleção de Inverno-2021 da Louis Vuitton: a 50 ou 60 anos atrás seria impensável uma coleção da Louis Vuitton com tantos elementos obviamente inspirados no hip-hop e skatewear. Seria impensável VirgilAbloh como diretor, impensável a utilização majoritária de modelos negros. A “alta moda” é um hospedeiro de grife das culturas periféricas, fazendo aquilo que o mundo ocidental sempre fez. Colonizando, copiando e lucrando. A moda é um jogo de ironia, diferencia hoje para incorporar amanhã e a alta costura a que representava a diferenciação de classe e esnobava estilos disruptivos hoje bebe da fonte divina da cultura urbana periférica. Bem diz o atemporal som do Racionais Mc’s, Negro Drama:

“Esse não é mais seu, oh, subiu
Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu
Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia?
Seu filho quer ser preto, ah, que ironia”

Vale dizer que o inverso também ocorre, a ressignificação de elementos historicamente exclusivos e de luxo passando a servir como referência e fazer parte de uma “cultura marginal” por seu uso contínuo. Exemplo disso é o uso difundido nas periferias de São Paulo e do Rio da grife Lacoste, inclusive bastante associadas nesses espaços ao Funk. É quase como se a marca tivesse surgido na perifa, tamanho o fascínio e ressignificação que sofreu.

Por fim, mas não menos importante, vale um retorno ao ponto de onde começamos. Toda história da moda anterior a metade do século dezenove é essencialmente uma história da moda contada por europeus e em outras palavras, essa história também é fruto da luta por poder e imposição, sendo afirmado inclusive, que a moda é um fenômeno original e exclusivo do “mundo ocidental”. E como é bem conhecido, quem controla a história controla mente e corações. É necessário termos em mente que a própria história que aqui foi contada hoje passa por ajuste de foco trazendo a cena vozes que foram silenciadas. Moda não é necessariamente apenas “a busca do novo em si mesmo”. Se ela se desenvolveu assim nos países do ocidente não significa que outros povos e culturas possuam essa mesma relação com o vestuário.

A imagem a seguir, nossa estampa principal, traz consigo a história que tramamos e relatamos. Mais à direita, temos a Alta Costura representada por uma passarela da Semana de Moda de Paris; à esquerda, uma representação do Streetwear no grafite realizado em uma favela, significando marginalidade e originalidade; ao centro vemos o Museu Victoria and Albert (importante museu de arte e moda) representando a história que conecta os dois momentos da moda em seus extremos. A composição é completa e ganha seu significado final quando nosso personagem sobreposto as demais imagens entra em cena: representa, segurando um livro em sua mão esquerda, o acesso ao conhecimento e uma avaliação crítica da história que lhe foi contada.

Tratamos de diversas questões nessa Trama mas não temos tempo e espaço para tratar de todas. Nosso objetivo é criar pontes entre a moda e um pensamento mais crítico a respeito do nosso mundo e sociedade. Encerramos com uma paráfrase do poeta Rodrigo Campos: “a beleza da escrita é sugerir alguns alicerces para que depois cada um faça a sua própria construção”. A moda tem história e ao vestir-se faz-se história, que possamos dar passos diários em direção a uma consciência mais crítica, capaz de utilizar o conhecimento para questionar e encantar.

Fontes:

Racionais Mc’s. Negro Drama. Nada Como um Dia Após o Outro Dia. 2002. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=u4lcUooNNLY

Kyan. Nós é Ruim e o Cabelo Ajuda. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9IVs6NhWMyw

Hundreds, Bobby. ThisIsNot a T-Shirt: A Brand, a Culture, a Community – A Life in Streetwear. 2019

Lipovetsky, Gilles. Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução por Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Svendsen, Lars. Moda: Uma Filosofia. 2004

Santos, Heloisa Helena. Uma análise teórico-política decolonial sobre o conceito de moda e seus usos. Variata, v. 13 n. 28, 2020.

Massaroto, Ludimila Prado. Moda e Identidade: o consumo simbólico do vestuário.

Souza, Gilda de Mello e. O Espírito das Roupas: A Moda no Século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Morgado Pereira, Carolina (2015). O Vestuário e a Moda: e suas principais correntes teóricas. ModaPalavra e-periódico,202-221, 2015.

Bordieu, Pierre. Alta Costura e Alta Cultura, 1974.

Almeida, A. J. de. Indumentária e moda: seleção bibliográfica em português. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 3(1), 251-296, 1995.

Cunha, Maria Amália de Almeida. O conceito “capital cultural” em Pierre Bourdieu e a herança etnográfica. Perspectiva (Florianópolis), v. 25, p. 503-524, 2007.